segunda-feira, 18 de julho de 2016

O impacto económico de sermos Campeões Europeus

Para lá da experiência de vida, os mais céticos sempre poderão recorrer a inúmeros estudos científicos – realizados sobretudo por Faculdades reputadas – que indiciam uma correlação entre um maior nível de consumo e aquilo que, simplisticamente, podemos denominar de um índice elevado de “felicidade”. Em todo o caso, acredito que, para o leitor, seja célere a associação mental entre os momentos de mais intensa alegria e uma maior predisposição para abrir os cordões à bolsa.

Surge um forte impacto económico para Portugal após a odisseia de um mês que culminou num embate onde a França se apercebeu que o nosso Futebol «nojento» era, afinal, intransponível e mais eficiente do que o seu – e eles que fiquem com os toques artísticos, já que a nós nos soube muitíssimo melhor erguer o “caneco” e não nos voltarmos para a plantação do melão.

Primeiro que tudo, os mais fortes impactos já se sentem desde o início do Europeu na área da restauração – tem havido uma massificação de eventos temáticos gerados por restaurantes, empresas de catering, bares e até hipermercados, principalmente desde os oitavos-de-final (onde o “mata-mata” faz intensificar uma vontade de partilhar e sentir as emoções junto de um grupo). Portugal foi transpondo cada eliminatória e, inerente a tal facto, vêm os consumos antes e durante o jogo, os jantares em grupo e os festejos pós-vitória (abrindo portas à possibilidade de se estabelecerem lucros recorde para as cervejeiras e tabaqueiras com foco no mercado europeu – produtos, estes, com um notório pendor social).

Em tudo na vida entra uma questão emocional e a Economia é pródiga em casos de “animal spirits”. Este foi um dos termos que J. M. Keynes (um dos mais influentes economistas do século XX) concebeu e traçou resumidamente: «a maioria das nossas decisões em fazer algo positivo só pode ser tomada por força de espíritos animais – um otimismo espontâneo para a ação e não como consequência de uma pensada média de benefícios multiplicada pelas probabilidades quantitativas». Esta definição dita muito do que é o nosso quotidiano e é uma das razões explicativas para o facto das vendas de merchandising chegarem a ter um crescimento percentual de três e quatro dígitos nos grandes clubes e seleções nacionais, após os bons resultados numa competição. Para além do avultado prize money de 25,5 milhões de euros que a Federação Portuguesa de Futebol receberá, espera-se agora um crescimento exponencial (desde o começo do Euro até às semanas que sucedem a vitória final) na venda de produtos oficiais da FPF (quer por força dos adeptos nacionais, quer pelos fãs internacionais). Isto estenderá, sem margem para dúvidas, o valor arrecadado pela Federação nacional.

Além destes fatores, é lógico pensar que, só no último mês (que antecede o “pico” mais forte de Verão), existiu uma publicidade fortíssima e gratuita ao nosso país (sabido como belo, quente e acolhedor) um pouco por todo o mundo. Como é óbvio, tal trará impactos muito significativos no turismo recebido, que se estenderão fortemente até ao final deste ano para as áreas de hotelaria, agências de viagens, restauração (uma vez mais), transportes e gasolineiras, essencialmente. Um dos lados bons do mecanismo económico é ser um sistema aberto e sinérgico: todas as áreas contarão com um reforço crescente dos serviços de publicidade (concedendo largos milhões às empresas de Marketing). Este desenvolvimento criativo espalhar-se-á por uma enormidade de mass media – como canais de televisão, jornais e rádios que terão um boom nas suas receitas; tal como as empresas de apostas, tanto pelo incremento do volume de apostas, como pelo aumento substancial de publicidade que pauta as casas online.

Como é facilmente percetível, toda a economia nacional sentiu (e sentirá) os impactos francamente positivos dos resultados notáveis da nossa Seleção de Futebol. As sucessivas passagens de uma bola pela área delimitada por três ferros não só libertam milhões de sorrisos, como fazem com que essa alegria se cumpra em transações de largos milhões de euros. Ainda que um estudo concretizado pelo IPAM (Instituto Português de Administração de Marketing) projete que a conquista do Europeu gere um retorno de cerca de 600 milhões de euros para a economia portuguesa, a meu ver é uma tarefa penosa e inconsequente, até, tentar desvendar a priori qual o valor económico exato que estará por detrás do feito de termos voado mais alto do que toda a Europa. Quanto mais não seja, porque existirão sempre os tais “animal spirits” que não permitem o surgimento de uma equação que desvende um número preciso – bem-vindos à Economia!

Por último e tendo em conta a semana em que nos encontramos, gostaria de expressar as minhas maiores felicitações à comitiva da Seleção Nacional – que tanto nos dignificou – e, ainda, a todos os atletas lusitanos que arrecadaram um sem número de medalhas nos Europeus de Atletismo, fazendo esvoaçar tão alto a nossa bandeira.




Gonçalo Sobral Martins
(in Jornal «Vida Económica» - 15 de Julho de 2016)

4 comentários:

  1. Fantastica analise concisa e longe do jargao economico de "palha" que tantos colocam. Perceptivel a todos, como se quer!


    Jose Freitas

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  2. O tempo (em breve) ditará o fenomenal economista que serás!


    Benedita Girão

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  3. Endereço a Gonçalo Sobral Martins, as minhas felicitações pela competência, verdade, com que analisa, profundamente, numa linguagem assaz compreensível , o estado da economia portuguesa a partir d'O impacto económico de sermos Campeões Europeus". Fico-lhe grato pela abundância de conhecimentos que adquiri, através desta crónica, que passarei a ler com mais assiduidade.

    Cordialmente,

    antónio palma mendes

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