terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O abraço que nunca deixei de [te] querer



video
[Declamação do poema por Gonçalo SM]


Outrora,
apeteceu-me um abraço teu.

Daqueles abraços de urso,
que despertam a magia de um tempo
em que acreditava que viria a ser astronauta
e deixar pegadas noutro planeta.

Mais tarde,
todos diziam que queriam ser futebolistas
ou músicos.
Eu?
Confessava
– em jeito de brincadeira,
meio do contra (só porque sim)
e para deixar os adultos de queixo caído –
a bela tanga que seria engenheiro aeronáutico.
Nunca ouvi qualquer miúdo a dizer semelhante,
antes ainda de cumprir uma década.
Nesta fase,
já tinha mais noção do mundo,
mas nunca me libertei deste vício
de querer ter os pés pouco assentes no chão.

A cada ano que passava,
via-me mais distante do céu.
Talvez por isso o contemplasse,
dia após dia,
com maior admiração.

Mudei muito,
mas nunca deixei de sonhar
e de querer o melhor para mim.

Foi por isso que nada do que previ aconteceu
– e ainda bem.
Nunca me agarrei ao céu,
nem sequer construí aviões.

Hoje,
tudo está diferente
– e ainda bem.
Dou-me melhor com as palavras
e com os números
do que com o céu.

Não!
Para ser exato,
nem tudo está diferente.
Hoje
– à semelhança dos tempos de criança –,
apetece-me um abraço teu.
Daqueles de urso.

Hoje,
sim,
apetece-me um abraço teu.
Precisamente igual ao que queria
nos tempos em que era astronauta
e deixava pegadas noutro planeta.




Gonçalo Sobral Martins

12 comentários:

  1. Absolutamente divinal!

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  2. Um belisimo momento.
    Obrigado por esta partilha.

    Muito bom texto, parabens

    ABC,
    Jorge Franco

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  3. A forma de escrever agradame mas as ideias por detras das palavras ajnda mais. Originalidade no ponto !

    @ Maria santos costa

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  4. “Style is to forget all styles.”
    — Jules Renard

    mais q evidente q aqui se seguiu esse "estilo" ;)

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  5. { "em que acreditava que viria a ser astronauta
    e deixar pegadas noutro planeta."


    "nos tempos em que era astronauta
    e deixava pegadas noutro planeta." }


    Magnífica transformação do tempo verbal.

    É assim mesmo, nós fomos o que realmente sentimos que fomos.

    A realidade está no que sentimos que vivemos.

    Nunca somos só o que "realmente" somos.



    Inspirou esta minha manhã, já reli por meia dúzia de vezes e vou continuar por umas quantas mais.


    Cumps,
    Ana Rita Moreira

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  6. o céu mais maravilhoso é o da poesia

    obrigado por esta dádiva e pelos sorrisos doces que me concedeu



    bjs da regularleitora
    Susana Silva

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  7. texto soberbo e linda imagem

    ines maia

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  8. Mágico, mágico, magico!

    Abraços, JLp

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  9. Quanta sensibilidade nestas palavras.

    É bom saber que ainda que cada vez mais escassas vão surgindo pérolas no mundo da poesia nacional.
    Já tivemos tão bons poetas e hoje contam-se pelos dedos.
    Os jovens tendem a afastar-se da literatura, da magia das palavras, dos sonhos de construir universos.
    Nos meus 55 anos, sei bem o quão diferente são as novas gerações comparadas com a minha e com as anteriores.
    Não são melhores, nem piores, são diferentes e há coisas novas que nascem e outras que se perdem. Esperemos que a poesia, num país historicamente de poetas sensacionais, nunca se perca e continuemos sempre a distinguir-nos neste campo.


    Fabuloso trabalho, Gonçalo Sobral!

    Veja sempre mais e mais longe e continue a dar o seu magnífico contributo ao nosso idioma. Ainda tão jovem e já com este reportório, então é certo que muito tem para nos dar.

    Luís Lopes / Penalva do Castelo, Viseu

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  10. Até ao infinito e mais além...

    De quem tu sabes. ;)

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  11. Até ao infinito e mais além...

    De quem tu sabes. ;)

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