segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O silêncio das palavras imaginadas

Os poetas dizem tudo o que já foi dito. E aqui figura a beleza da poesia. Até pode ter sucedido, mas não estou recordado de algum poeta ter, algum dia, dito algo – em substância – que não tivesse sido adiantado antes por alguém. A magia dos poetas não é a de enunciar coisas novas. Aliás, as coisas essenciais – termo bruto e vago – nas quais ela se debruça nasceram todas antes da poesia. A magia dos poetas está, antes, em nos trazer novas roupagens a tudo aquilo que já foi dito, mas que nunca foi dito exatamente da forma que eles – poetas – disseram.

Será, invariavelmente, precipitado alguém se considerar parte desse grupo restrito de personalidades, detentoras do dom de recriar a realidade. Mas farei jus à definição que enunciei. Portanto – mesmo sem saber se a poesia cabe dentro da minha recriação –, não te trarei palavras novas. Tentarei, apenas, enunciar-tas de um jeito que jamais alguém lhes concedeu:

A tua presença é de tal forma essencial que a sinto mais ainda na tua ausência. De tal forma que, nos momentos mudos em que não te vejo, sinto que, mesmo se for para se estar em perfeito silêncio, é preferível estar em silêncio contigo – que, aliás, só poderia ser perfeito por ser contigo. Porque até o silêncio ensurdecedor das palavras que não dizemos nos comunica a magia – onde já se viu sorte tão tamanha? – do destino nos ter congratulado com essa dádiva que é coexistirmos no mesmo espaço e no mesmo tempo.


Gonçalo Sobral Martins

2 comentários:

  1. A poesia não irá, certamente, esgotar-se no texto acima, felizmente, mas os supostos destinatários daquelas palavras poderão, de certeza, terem contribuído para que a poesia da crónica de hoje se elevasse mais alto, quer no horizonte, quer no todo circundante espaço silencioso da praia da foto, fortemente simbolizado na elegante cadeira, constituindo, ao mesmo tempo, um excelente e magnífico cenário poético, condizente com o tema da crónica !

    Parabéns, Gonçalo, pelo belo trabalho que emprestas à poesia portuguesa!

    Cordialmente,

    antónio palma


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  2. As tuas palavras ecoarão por muitos anos. Não tenho dúvidas. Silêncio, neste caso, só o que se imporá à leitura profunda dos teus excertos.

    Beijinho enorme,
    mpimentac

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